As Relações Perigosas – Choderlos de Laclos

Olá, livrólicos de plantão!

Em um episódio publicado em 2021, conversamos sobre um dos clássicos mais escandalosos e fascinantes da literatura mundial: “As Relações Perigosas” (Les Liaisons dangereuses), publicado em 1782 por Choderlos de Laclos, em que a sedução foi transformada em uma arma de guerra social na França pré-revolucionária.

Pierre Choderlos de Laclos não era apenas um escritor, era também um general do exército francês. Curiosamente, ele fundou uma escola de Artilharia, a qual teve ninguém menos que Napoleão Bonaparte como aluno. Movido pelo desejo de escrever algo que causasse polêmica e o tornasse imortal, Laclos utilizou sua visão estratégica militar para construir uma trama de manipulação psicológica sem precedentes. A história foca no duelo psicológico entre a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont, dois ex-amantes que competem para ver quem consegue corromper mais corações, como a inocente Cécile Volanges e a virtuosa Madame de Tourvel.

 

A obra é um retrato profundo da sociedade aristocrática francesa de 1782, vivendo o auge do Iluminismo e a iminência da Revolução Francesa. O livro revela a hipocrisia do Antigo Regime, onde a aparência era tudo e a virtude servia apenas como um obstáculo a ser derrubado. Assim, os protagonistas tentam substituir o sentimento pela razão fria e calculista a fim de dominar seus “inimigos” no campo da sedução. Durante o episódio, discutimos como a Artilharia, carreira de Laclos e Napoleão, era um caminho de ascensão para quem não vinha da alta nobreza, conferindo ao autor uma visão crítica e externa das futilidades da corte.

As Relações Perigosas é o ápice do romance epistolar, inspirado na Nova Heloísa de Rousseau, mas com um tom muito mais sombrio e satírico. Na época de seu lançamento, o livro foi um sucesso imediato, vendendo mais de mil exemplares no primeiro mês e sendo lido até por Maria Antonieta. Laclos demonstra um domínio técnico impressionante ao criar 175 cartas com estilos de escrita completamente diferentes contemplando cada um dos 13 personagens e adaptando, portanto, o vocabulário para dar conta desde o tom de ingenuidade de uma jovem de 15 anos ao estilo irônico e mordaz de uma marquesa. O impacto da obra é imenso, com dezenas de adaptações para cinema, teatro, ópera, balé e televisão (incluindo uma minissérie brasileira de 2016).

A escrita de Laclos é um convite para refletir sobre a moralidade, o papel da mulher na sociedade e os perigos da vaidade humana. Será que, em um mundo de aparências, alguém pode realmente vencer?

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