Eurípides – As Bacantes, Ifigênia em Áulide, Ifigênia entre os Táurios e Medeia

Olá, livrólicos de plantão!

Neste texto falamos sobre Eurípides, nascido em Salamina no ano de 480 a.C., no mesmo ano da famosa batalha naval entre gregos e persas, e falecido em 406 a.C., que foi o mais jovem dos três grandes poetas trágicos da Grécia Antiga, ao lado de Ésquilo e Sófocles. É uma figura central para a literatura ocidental por sua abordagem dos mitos e da alma humana, embora fosse conhecido por ser uma pessoa antissocial. Diferente de seus contemporâneos, ele possuía um forte apreço pelo pensamento dos sofistas, que eram mestres da retórica e da argumentação. Estas características eram refletidas nos diálogos densos e questionadores em suas obras. É possível observar em suas peças não só a presença dos grandes mitos, mas também a psicologia e as motivações humanas, muitas vezes dando voz e protagonismo a figuras marginalizadas na sociedade grega, como as mulheres.

Busto de Eurípides – domínio público

 

Sua contribuição para a história do teatro é marcada por inovações técnicas e temáticas. Eurípides trazia os deuses e heróis para um nível mais humano, tratando de sentimentos como o ódio, a vingança e o sofrimento doméstico, como visto em Medeia. Utilizava com frequência o recurso conhecido como Deus ex machina, em que uma divindade ou elemento sobrenatural intervinha no final da peça para resolver conflitos não resolvidos pelos humanos. O autor demonstrava um olhar crítico em relação aos oráculos e videntes, muitas vezes ridicularizando-os ou questionando sua validade por meio de seus personagens. Sua obra, especialmente na peça As Bacantes, reflete uma mudança na mentalidade grega, marcando o fim de uma era governada pelo divino e o início de outra, governada pelos “homens comuns”. Por ser uma figura controversa, Eurípides foi alvo de algumas comédias de Aristófanes, ridicularizado por seu estilo e ideias.

Escultura de William Wetmore Story, 1868. Domínio público.

 

Eurípides morreu aos 74 anos de idade, tendo passado seus últimos anos isolado, cercado por livros e longe da agitação de Atenas, tendo se exilado na Macedônia. Estima-se que sua obra seja composta por cerca de 80 peças, embora apenas uma pequena fração tenha chegado até nós. Sua importância foi plenamente reconhecida após sua morte. Um exemplo disso é que sua peça As Bacantes, apresentada postumamente, recebeu o primeiro prêmio nas Grandes Dionisíacas em 405 a.C..


Vamos, então, às peças de Eurípides comentadas em episódios da Rádio Caractere: As Bacantes, Ifigênia em Áulide, Ifigênia entre os Táurios e Medeia.

As Bacantes

Como mencionado, esta peça foi apresentada somente após a morte de Eurípides, e trata do retorno de Dionísio, ou Baco, à sua cidade natal, Tebas. O contexto é o conflito entre a divindade e a aristocracia local, esta representada pelo rei Penteu e sua mãe, Ágave, que se recusam a reconhecer Dionísio como um verdadeiro deus e filho de Zeus. Dionísio busca limpar a honra de sua falecida mãe, Sêmele, e impor seu culto na Grécia. Para isso, Dionísio induz as mulheres tebanas a praticarem um ritual em sua homenagem, levando-as ao Monte Citerão. O ritual, repleto de celebração do instinto, do corpo e da natureza selvagem choca Penteu, defensor da ordem e da razão, que tenta proibir o culto, mas é manipulado pelo próprio deus que, disfarçado de estrangeiro, o convence a se vestir de mulher para espionar as bacantes.

Bacantes atacando Penteu. Afresco romano – Pompeia.

 

Ifigênia em Áulide e Ifigênia entre os Táurios

No episódio da Rádio Caractere publicado em 2023, conversamos sobre duas peças de Eurípides que tratam da mesma personagem: Ifigênia, filha de Agamênon e sobrinha de Helena de Tróia.

Em Áulide, a frota grega está presa no porto por falta de ventos, resultado de uma punição da deusa Ártemis devido a uma ofensa de Agamenon, e um vidente indica que o único meio de liberar os ventos é o sacrifício de Ifigênia. Agamenon atrai a filha e sua esposa, Clitemnestra, com a falsa promessa de que a jovem se casaria com o herói Aquiles. Ao descobrir a verdade, Ifigênia aceita o sacrifício em nome da liberdade da Grécia. No entanto, no momento da execução, temos um daqueles artifício dos deuses e a jovem é poupada.

O sacrifício de Ifigênia. Afresco romano – Pompeia.

 

É desse modo que vamos encontrar Ifigênia entre os Táurios, após vinte anos. Agora ela é uma sacerdotisa de Ártemis, sendo forçada a preparar estrangeiros para o sacrifício. A reviravolta nesta peça é a chegada de seu irmão, Orestes, fugindo das Erínias após ter cometido um ato horrendo.

A relevância dessas duas peças para a mentalidade grega através de discussões sobre o peso do destino. A figura de Ifigênia é trabalhada pelo autor para questionar a moralidade dos sacrifícios e a distinção entre gregos “civilizados” e povos “bárbaros”.

Orestes atormentado pelas Fúrias. William-Adolphe Bougereau, 1862.

 

Medeia

A peça Medeia é uma daquelas obras que chocaram o público ateniense. Narra a vingança de Medeia contra seu marido Jasão, que decide abandoná-la para se casar com a filha do rei Creonte, visando ganhar status social e assegurar uma linhagem nobre. Medeia, uma feiticeira estrangeira que havia traído sua própria família por amor a Jasão, sente-se profundamente desonrada. Consumida pelo ódio, ela planeja uma vingança extrema.

O ato de vingança gerou tanto impacto no público por desafiar as convenções da época, ao apresentar um crime hediondo, premeditado, realizado por uma mulher consciente de seus atos, e não em estado de loucura.

Jasão e Medeia. John William Waterhouse, 1907.

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