Castro – António Ferreira

Olá, livrólicos de plantão!

Neste episódio publicado em outubro de 2023, fizemos uma viagem ao século XVI para redescobrir um gigante muitas vezes esquecido da nossa língua: António Ferreira e sua obra-prima, Castro.

Esqueça as tradicionais histórias de amor. Aqui, mergulhamos em uma tragédia real que moldou a identidade de Portugal.

Nascido em 1528, Antônio Ferreira foi um humanista e professor na Universidade de Coimbra que desempenhou um papel vital na consolidação do português moderno. Em uma época em que o espanhol era a língua de status internacional, Ferreira insistiu em escrever exclusivamente em português, acreditando que uma nação precisava de uma literatura em sua própria língua para criar raízes nacionais. Ele é um dos grandes nomes do Classicismo renascentista, trazendo para Portugal os moldes da antiguidade grega e latina.

Publicada originalmente como um exercício de escrita criativa, a tragédia Castro (ou A Castro) é considerada uma obra fundamental da literatura portuguesa. Eternizou o mito de Inês de Castro no imaginário lusitano, influenciando de Camões, com Os Lusíadas, a autores contemporâneos. Trata-se de uma obra inspirada nas tragédias gregas, contendo cinco atos e dispondo de um coro de donzelas de Coimbra, que comenta a ação e clama por justiça.

O Assassínio de Inês de Castro – Karl Briullov, 1834

 

Ferreira foi capaz de construir uma tensão dramática impressionante sem que os protagonistas, Pedro e Inês, se encontrem em cena. A força da obra reside nos diálogos sobre o dever político e o amor fatal.

Quando o drama acontece historicamente, no século XIV, Portugal era um reino frágil, constantemente ameaçado por vizinhos como Castela e Leão. Inês não era uma simples aia, era uma nobre galega. O rei Dom Afonso IV temia que a influência da família dela sobre o príncipe Pedro pudesse arrastar Portugal para guerras civis ou comprometer a sucessão ao trono. O assassinato de Inês na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, por ordem do Rei, provocou uma revolta por parte de Pedro, que se voltou contra o próprio pai, culminando em lendas viscerais, como a do príncipe que arrancou o coração dos assassinos e coroou o cadáver de sua amada.

A Coroação de Inês de Castro – Gillot Saint-Evre, 1827

 

A história de Pedro e Inês nos ensina que, em Portugal, o amor e a política caminham lado a lado e promovem a produção de obras-primas da literatura.

E você, acha que a vingança de Pedro foi um ato de amor ou de loucura?


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